segunda-feira, 25 de maio de 2015

MÉDICOS REVELAM QUE MUNDO ESTÁ PERDENDO A GUERRA CONTRA O SUICÍDIO

“Estamos perdendo a guerra para o suicídio”. A afirmação alarmante é do psiquiatra e professor da USP Mario Francisco Juruena, que explica que, embora não haja uma forma de determinar com plena certeza que um indivíduo vá se matar no futuro, os médicos têm, sim, instrumentos para prever as chances que pacientes graves carregam de tirar a própria vida.   A principal chave da prevenção estaria no tratamento dos traumas de infância. Cicatrizes emocionais que os adultos carregam, de feridas abertas quando eram crianças, podem antecipar muitos dos riscos de suicídio — separação materna, estresse, maus tratos, negligência, perdas precoces e abusos seriam, de acordo com o psiquiatra, alguns dos principais fatores.  Desta maneira, o papel do médico é monitorar o histórico do paciente, dando atenção a traumas severos em qualquer idade, mas mais especificamente na primeira infância e na vida intrauterina.
Isso porque, como conta o psiquiatra, quanto mais precoce o trauma, maior ele será, já que o sistema nervoso de uma criança não está preparado para a agressão, apenas para a afetividade.
— São situações que vão desencadear transtornos afetivos, dependência de substâncias e também o suicídio. Temos que investigar tudo isso a fundo. Nossos índices de suicídio no mundo hoje em dia são iguais aos dos anos 60. Evoluímos no tratamento da aids, do câncer, mas do suicídio, não. Não estamos diagnosticando e prevendo direito nossos pacientes.

Outros fatores de risco, que aumentam as chances de um suicídio no futuro, são o histórico familiar — indivíduos com parentes que tiraram a própria vida correm mais risco de se matar do que outros que não têm registros similares na família — e o sexo do paciente.

De acordo com Juruena, mulheres são muito mais sensíveis ao estresse desde pequenas.
O trauma e o estresse crônico vão se sobrepor onde houver a vulnerabilidade.
Profissões criativas também constituem um sinal de alerta para os psiquiatras. Um estudo feito em 2013, na Suécia, concluiu que escritores, por exemplo, estão entre os profissionais com maior índice de diagnósticos de esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, ansiedade, abuso de álcool e suicídio, como relata Helio Elkis, psiquiatra e coordenador do Programa de Esquizofrenia da Faculdade de Medicina da USP.

Psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC), Daniel Martins de Barros acrescenta que um estudo de sua entidade comprovou que pacientes esquizofrênicos e seus parentes tinham mais tendência a escolher empregos relacionados a artes visuais, e que indivíduos bipolares têm propensão a carreiras criativas sobretudo na área cientifica.

Barros chama a atenção, ainda, para a relação entre comediantes e o suicídio.

O ator Robin Williams, que tirou a própria vida em 11 de agosto de 2014, e o brasileiro Fausto Fanti, que se matou um mês antes, engrossam as estatísticas e provam que a figura do palhaço triste, retratada em personagens clássicos há décadas, reproduz com perfeição a mente angustiada dos humoristas, escondida atrás de uma persona feita para alegrar os outros.
— Os comediantes têm uma maior abertura a ideias novas. Eles têm menos autocontrole, são mais impulsivos, sentem menos emoções positivas, têm menos capacidade de se alegrar, menos amabilidade, e não possuem uma busca social.

Para Barros, os humoristas vivem no limite, buscando o equilíbrio entre agressividade e criatividade, e isto os encaminha ao perigo do suicídio. Carregam traços de doenças psicóticas — encontram associações e padrões onde eles não estão explícitos — e da bipolaridade, como a impulsividade e o pensamento acelerado. Além disso, apresentam maior distorção cognitiva e dificuldade de se focar.
— O humor é uma violação. Já tivemos muitas polêmicas com humoristas no Brasil porque eles saíram da faixa cinzenta do que é próximo de nós e foram para a faixa do que nos viola. Fizeram piadas com mulheres estupradas, por exemplo, algo que é uma violação, sim, como pede o humor, mas que é muito próximo de nós, então não tem graça.
Ainda assim, o psiquiatra evita falar em determinismo, recomendando apenas mais prevenção e diagnósticos mais certeiros.

— O suicídio é prevenível, sim, e várias mortes já poderiam ter sido evitadas.
Fonte: R7

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